
19/02/2021
Fonte: Jornal do Commercio
Marco Dassori
As lideranças do PIM receberam com um misto de perplexidade, temor e indignação
a decisão do governo federal
de reduzir de 35% para 20% a
alíquota do imposto de importação de bicicletas no Brasil, até
o final do ano. Os dirigentes
classistas são unânimes em dizer que a medida fere de morte
um segmento industrial emergente da indústria incentivada
de Manaus, especialmente em
um momento em que o setor
e o Amazonas encontram-se
sitiados pela segunda onda da
pandemia e seus impactos econômicos adversos.
O anúncio da medida veio
do próprio presidente Jair Bolsonaro, em postagem em suas
redes sociais, na noite desta
quarta (17). Acompanhada de
uma foto do chefe do Executivo
andando de bicicleta, a publicação informa que a alteração
da alíquota foi uma decisão
da Camex (Câmara de Comércio Exterior), do Ministério da
Economia, e que seria realizada
aos poucos, caindo de 35% para
30%, em março, e passando para
25%, em julho, e finalmente para
20%, em dezembro. A medida
foi oficializada no “Diário Oficial da União” desta quinta (18).
O presidente do Cieam (Centro da Indústria do Estado do
Amazonas), Wilson Périco, lamentou que, no momento em
que o país precisa gerar mais
empregos, em razão da crise
da covid-19, o Ministério da
Economia “insista em abrir a
economia” e que tenha tomado
uma decisão que pode afugentar investimentos em um segmento industrial que alcançou
o maior índice de crescimento
de volume de produção, no ano
passado.
O dirigente lembra que a
questão das alíquotas já tem sido
discutida há muito tempo com o
Ministério da Economia. Para o
dirigente, antes de tomar qualquer decisão nesse sentido, o
Executivo deveria entender que
o país não tem grandes conglomerados industriais nacionais
no segmento de bens de consumo e que este é atendido por
grandes multinacionais que geram empregos para brasileiros.
E diante dessa compreensão,
formular sua política industrial
com base nos objetivos a serem
alcançados.
“As multinacionais estão
aqui para se manterem competitivas, atendendo esse mercado, e isso se dá por conta
dos impostos de importação.
O país tem uma carga tributária que é um absurdo, uma lei
trabalhista que é muito nociva
ao investidor, e é deficiente em
infraestrutura. O que a multinacional precisa é só saber o que o
governo brasileiro quer. Se ela
tiver condição de atender o mercado nacional exportando seus
produtos e produzindo na Ásia
e no México, certamente fará
isso. Temos exemplos da Pepsi,
que já foi embora, e de outras
que já fizeram isso, lá atrás. O
governo precisa decidir se quer
gerar emprego para brasileiro,
e essa sinalização tem que ser
rápida. É uma pena”, desabafou.
Benefício aos estrangeiros
O presidente da Fieam (Federação das indústrias do EsRedução da alíquota para bicicletas pega indústria da ZFM de surpresa
tado do Amazonas), Antonio
Silva, diz que vê a iniciativa
“com muito pesar” e lamenta
que a decisão tenha sido tomada
sem qualquer contrapartida que
justifique a redução de imposto
de importação para as bicicletas.
No entendimento do dirigente,
os únicos beneficiados nessa situação serão os importadores
brasileiros e os fabricantes e
exportadores estrangeiros do
produto –principalmente da
China.
“É lamentável que o governo federal tome essa medida,
atendendo ao pedido apresentado, em novembro de 2019,
pela Aliança Bike (Associação
Brasileira do Setor de Bicicletas).
Aliás, conforme estudo e gráfico
divulgado pela própria entidade, de 2011 até 2019, tivemos
significativa redução de importações e aumento significativo
das exportações de bicicletas,
favorecendo a balança comercial do Brasil, com economia de
divisas, seguido de aumento do
valor exportado”, questionou
A base de dados citada aponta que, a despeito do breve repique de 2014, as importações
de bicicletas vêm percorrendo
trajetória declinante desde 2011,
e acabaram desabando 79,70%
no volume de vendas, de 369.206
(2011) para 74.962 (2020) unidades. As exportações, por sua vez,
percorreram caminho contrário
e –apesar do tombo registrado
também em 2014 –escalaram de
2.405 (2011) para 13.438 (2020)
unidades no mesmo período,
alcançando crescimento de
458,75%.
Antonio Silva ressalta que os
dados confirmam que 2020 foi
ano de “crescimento espetacular” para o mercado brasileiro
de bicicletas, com alta de 50%
nas vendas, em comparação com
2019. Por isso, o presidente da
Fieam reforça que não vê na medida federal nenhum eventual
favorecimento à economia brasileira ou à indústria brasileira,
mas apenas prejuízos ao país,
aos investimentos e à geração de
empregos para os trabalhadores,
e principalmente prejuízo para a
Zona Franca de Manaus.
“Essa decisão só vem agravar ainda mais os efeitos econômicos negativos causados pela
pandemia ao PIM, inviabilizando o segmento de produção de
bicicletas na ZFM e eliminando
5.000 empregos diretos e indiretos no Polo. A Fieam apoia
integralmente as intervenções
do vice-presidente da Câmara
dos Deputados, Marcelo Ramos
(PL-AM) e do senador Omar
Aziz (PSD-AM), ao mesmo tempo em que conclama os demais
representantes do Amazonas
nas duas casas legislativas, bem
como as demais entidades coirmãs, a defenderem a ZFM contra
mais esse ataque a economia do
Brasil e a indústria do Amazonas”, afiançou.
“Contramão da necessidade”
Procurada pela reportagem do Jornal do Commercio, a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares) respondeu, por meio de nota de sua assessoria de imprensa, que recebeu “com surpresa e preocupação” a medida do Gecex. Na análise da entidade, a diminuição da alíquota coloca em risco empregos não apenas em Manaus, como também em todo o país, dado que há “centenas de empresas” que montam bicicletas através de aquisições de componentes nacionais e importados e que, agora, terão concorrência direta dos produtos importados.
A Abraciclo destaca que a indústria brasileira de bicicletas, instalada no PIM desde 1975, é a quarta maior fabricante mundial do produto e gera cerca de 4.500 empregos diretos e indiretos. Enfatiza ainda que as bicicletas produzidas em Manaus contam com o mesmo nível de qualidade das marcas globais, graças aos investimentos contínuos que as fabricantes têm feito em tecnologia e modernização. A entidade informa ainda que, antes da medida, as empresas vinham negociando com o governo federal a necessidade de reduzir o custo Brasil e, com isso, aumentar a competitividade, paralelamente à adoção de medidas de abertura comercial.
“No momento em que as
fabricantes nacionais instaladas
no PIM se desdobram para manter os empregos e a produção,
diante dos impactos da pandemia e a adoção de rigorosos protocolos de segurança aos seus
colaboradores e prestadores de
serviços, esta medida vem na
contramão da necessidade do
país, de gerar mais postos de
trabalho e renda. [Vai acabar]
beneficiando apenas os países
asiáticos, principais produtores
e exportadores de bicicletas”,
arrematou o texto da assessoria
da Abraciclo.