21/01/2026 11:02
Há momentos em que um evento deixa de ser evento e vira instrumento com metodologia. A preparação do III Fórum ESG Amazônia, conduzida por CIEAM e Suframa, pode ser esse raro intervalo em que o Polo Industrial de Manaus decide fazer o que o Brasil costuma adiar: antecipar-se. E antecipar-se, agora, não é virtude abstrata. É estratégia de sobrevivência e de disputa.
Por Alfredo Lopes - BrasilAmazoniaAgora - Follow Up 20.01.2026
O Acordo UE–Mercosul, assinado em 17 de janeiro de 2026, abriu uma nova etapa política e econômica, mas, sobretudo, instituiu uma nova gramática de mercado: a Europa não compra apenas mercadoria; compra evidência. Compra rastreabilidade. Compra credibilidade. Compra o que pode ser auditado sem pedir licença à retórica.
É por isso que a preparação do Fórum pode ser um momento privilegiado para matizar os desafios do Acordo — matizar no sentido forte, civilizado, que nos interessa. Não se trata de celebrar ou temer. Trata-se de olhar por dentro, ver onde o Acordo aperta, onde ele libera, onde ele exige, e onde ele premia quem se organiza primeiro.
O carbono virou alfândega
O primeiro aperto tem nome e calendário. O carbono está deixando de ser discurso e virando alfândega. O CBAM, mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira, sai do regime de transição e entra em fase operacional plena a partir de 2026, e isso desloca o eixo competitivo: o preço do produto passa a carregar com mais nitidez o preço das emissões. O que era reputação começa a virar custo. O que era promessa passa a virar documentação. E, nesse ponto, o PIM precisa se perguntar, com frieza industrial: qual é o nosso passaporte de emissões por cadeia, por produto, por setor? Porque, se não houver resposta técnica, o mercado europeu fará a pergunta com a linguagem que ele domina: tarifa, exigência, barreira não-tarifária, tempo perdido.
Rastreabilidade não é pauta ambiental; é requisito comercial
Daí a ponte natural para o segundo aperto, que é rastreabilidade. A União Europeia está reforçando seus instrumentos contra o desmatamento e elevando as obrigações de diligência das cadeias, com prazos que foram ajustados, mas sem recuo no princípio. O relógio da implementação do regulamento anti-desmatamento foi empurrado para dezembro de 2026, mas o rumo segue o mesmo: quem não rastreia, não entra; quem não prova, não passa. Isso empurra a Amazônia para um dilema que é também uma chance: ou ser tratada como território suspeito, ou converter-se em território premium pela capacidade de provar conformidade e impacto positivo.
A indústria como guarda-chuva da floresta em pé.
E é justamente aqui que o III Fórum ajuda a construir a virada narrativa que vale: a indústria como guarda-chuva da floresta em pé. Só que, para essa frase não virar apenas uma bela metáfora, ela precisa ganhar ossatura. Precisa virar argumento verificável, com indicadores, com governança, com trilhas de implementação, com um mínimo de padrão comum que permita ao PIM dizer ao mundo, sem tremor: nossa presença reduz pressão sobre a floresta, eleva produtividade por hectare inexistente, desloca a economia da devastação para a economia do valor, e faz isso de modo mensurável. Não se pede “compreensão”; oferece-se prova.
ESG sem métrica é folclore corporativo
Nesse sentido, o Fórum não pode ser apenas palco. Ele precisa funcionar como canteiro de obra. A Suframa já lançou a iniciativa ZFM+ESG, o que significa que existe base institucional para transformar intenção em programa. O desafio agora é deixar de tratar ESG como ensaio e passar a tratá-lo como infraestrutura de mercado. Isso exige rotina, exige protocolo, exige metas. Exige, principalmente, um acordo dentro do próprio PIM sobre o que será considerado “mínimo aceitável” de mensuração e transparência, para que cada empresa possa avançar com sua estratégia, mas sem que o conjunto fique vulnerável por falta de padrão.
Neutralização de carbono: oportunidade — desde que não vire atalho retórico
Aí entra o ponto mais delicado — e também o mais promissor. Certificação, neutralidade, inventário, auditoria: tudo isso pode ser vantagem comparativa real, desde que não vire atalho retórico. A própria discussão sobre neutralização do carbono do PIM, apresentada no ambiente CIEAM/Suframa, aponta uma direção potente ao colocar a floresta não como paisagem, mas como infraestrutura climática. Só que a Europa não compra poesia ambiental. Ela compra método. Portanto, a pergunta decisiva não é “vamos neutralizar?”, mas “qual metodologia, qual governança, qual auditoria, qual cronograma, e quais setores começam primeiro?”.
O Acordo também traz riscos — e “matizar” é olhar para eles de frente
Quando essa engrenagem se encaixa, uma consequência econômica emerge com naturalidade. Se o PIM se apresenta como plataforma industrial capaz de entregar conformidade, rastreabilidade e desempenho ambiental, ele vira também ímã. Ímã de investimento europeu, não por filantropia, mas por racionalidade: fabricar em Manaus para acessar Mercosul e outras rotas regionais, com um “selo territorial” que conversa com a nova régua europeia. O que hoje é desafio pode virar diferencial, desde que se trate ESG como produtividade aplicada.
Claro, tudo isso acontece sob tensão política. O Acordo ainda atravessa resistências e disputas, especialmente na ratificação europeia, e isso recomenda prudência. Mas prudência não é paralisia. Pelo contrário: quando o cenário é incerto, quem se antecipa não perde tempo discutindo o vento; constrói o barco. E a preparação do III Fórum pode ser justamente esse momento de construção.
O que o III Fórum pode produzir além dos debates
Se quisermos que o Acordo UE–Mercosul seja oportunidade e mais do que manchete, o III Fórum precisa sair do formato “evento” e entrar no formato “entrega”. Um mapa claro das exigências europeias que realmente importam para as cadeias do PIM, trilhas setoriais com metas de 12 meses, um protocolo mínimo de inventário e auditoria, e uma carta de posicionamento que transforme a frase “indústria como guarda-chuva da floresta em pé” em compromisso mensurável.
Porque, no mundo que está nascendo, sustentabilidade não é medalha. É senha de acesso.
(*) Follow Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal
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