08/04/2020
Ivânia Vieira
Professora da Ufam e Articulista de A CRÍTICA
e-mail: ivvieira@uol.com.br
O trágico evento COVID-19 revela um Brasil que existe, mas os Governos insistem em não contabilizar. No enredo escrito para decidir sobre o pagamento do auxílio emergencial e quem poderá recebê-lo abre-se a janela da realidade intrinsecamente vinculada ao modelo político adotado para a gestão pública: Os dados de referência da população estão escondidos ou a tecnologia e inovação tecnológica governamental abandonou o estudo contínuo das dinâmicas socioeconômicas do país.
No 20º ano do séc. XXI, o governo brasileiro elege o achismo arrogante como chave para a tomada de decisão e estabelece um vai-e-vem reducionista em questões que deveriam, pelo menos, ter sido incluídas na plataforma de um planejamento governamental.
São desprezados os mapas existentes, desmantelados seções e núcleos de trabalhos técnicos cuja tarefa é estabelecer referenciais nacionais e o conhecimento técnico-cientifico.
O resultado desse perfil adotado poderá produzir décadas de atraso e manutenção da farsa da inteligência governamental.
O Governo do Brasil conseguiu ser ágil na aprovação de recursos para socorrer os bancos.
O volume é de R$ 650 bilhões em negócios diretos com o Banco Central.
Na outra ponta, o PL nº 1.066/2020, aprovado em 30 de março pelo Congresso Nacional, só conseguirá começar a funcionar na quinta-feira (9 de abril) se não houver novo recuo.
A ajuda emergencial a segmentos mais vulneráveis se tornou matéria após movimento forte de diferentes segmentos da sociedade que pressionaram o Governo a se mexer.
De lá para cá todos assistimos um desfile de desculpas, algumas de ordem técnica, para justificar a demora no repasse da ajuda a brasileiros em profunda necessidade.
Ao mesmo tempo, especialistas informavam que parte desses brasileiros ignorados pela governabilidade já poderia receber os R$ 600.
São os 13 milhões cadastrados no Programa Bolsa Família; os do Cadastro Único; os microempreendedores individuais.
Arrastar a população mais vulnerável a previsões das datas e, ao mesmo tempo, utilizar a miséria para pressionar à volta ao trabalho é uma atitude irresponsável e criminosa.
Isso tem sido feito com frequência a partir do presidente da República e replicado por membros da equipe governamental, séquito de assessores e apoiadores. A lógica é: Voltemos ao trabalho e atrasemos a ajuda aos mais fragilizados pelo efeito da pandemia.
Quem adoecer e morrer, paciência, alguns terão que morrer. É a ordem oficial.
Há uma opção clara da cúpula do governo aos que devem receber, logo, a ajuda, nesse caso, os banqueiros do Brasil. Estes sim precisam ser preservados, assistidos e salvaguardados.
O outro Brasil invisível produz carradas de votos e assegura mandatos. Parte dele é revelada nas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (via pesquisa nacional por amostra de domicílio, a PNAD Continua), e esses números deveriam ser uteis para a gestão governamental.
O que se viu forma ataques aos estudos do IBGE e reestruturações que deixam sob suspeição futuros resultados. O Brasil é a oitava maior economia do mundo, a maior da América Latina e uma das maiores de toda a América.
O lugar nesse quadro deveria ter equivalência a responsabilidade e ao compromisso constitucional de zelar pela vida de todos os brasileiros e, em situações drásticas, como desta pandemia, salvar a vida desses brasileiros que engrossam os números e o governo afirma não saber quem são, onde estão.