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“o que significaria demonstrar, com ciência e transparência, que o PIM neutraliza — por preservação indireta — o carbono que emite?”
Por Alfredo Lopes - BrasilAmazoniaAgora - Follow Up 07.01.2026
Há um equívoco elegante — e perigoso — rondando o debate nacional: tratar o Polo Industrial de Manaus (PIM) como simples política de compensação regional, um arranjo fiscal para “reduzir desigualdades”. Sim, essa é uma de suas finalidades constitucionais e históricas. Mas ela não esgota o que o PIM é, nem explica o que o PIM faz, em silêncio, todos os dias, para o Brasil.
O PIM é, adicionalmente, uma política pública ambiental — extra, de valor inestimável — porque sustenta uma evidência intuitiva que o País ainda não teve coragem de medir com rigor: quando a economia legal se mantém de pé no coração da Amazônia, a floresta tende a permanecer de pé ao redor dela.
E é aqui que entra o mote que deve orientar a próxima etapa da inteligência institucional amazônica:
“O que significaria demonstrar cientificamente que as indústrias do Polo Industrial de Manaus, ao ajudar indiretamente a proteger a floresta, neutralizam o carbono emitido em suas instalações?”
Neutralizar não é “zerar fumaça”: é provar balanço climático
A palavra “neutralizam” é forte — e precisa ser tratada com honestidade científica.
Neutralização, neste contexto, não pode ser marketing, nem slogan. Ela só pode significar uma coisa: um balanço verificável, em que o carbono emitido pelas instalações industriais (escopos 1 e 2, e, quando possível, partes relevantes do escopo 3) seja compensado por emissões evitadas, atribuíveis de modo robusto à existência e ao efeito territorial do PIM.
Em português direto: se o PIM ajuda a evitar desmatamento que ocorreria sem ele, o carbono que deixamos de lançar na atmosfera por manter a floresta em pé pode ser comparado — com método — ao carbono que as fábricas emitem.
Não é magia. É contabilidade climática aplicada a um território.
A tese central: o PIM como “infraestrutura econômica de contenção”
O PIM opera como um tipo raro de infraestrutura: uma barreira econômica contra a fronteira predatória.
Ele faz isso por mecanismos que o Brasil conhece, mas raramente conecta:
Emprego urbano e formal reduz incentivo à economia de derrubada (onde a renda nasce do fogo e da grilagem). Cadeias produtivas e serviços geram alternativas ao “empreendedorismo” da ilegalidade. Arrecadação e massa salarial aumentam densidade institucional do Estado (presença fiscal, serviços, educação, tecnologia). Economia de cidade concentra demanda, reduzindo a dispersão populacional que empurra a ocupação desordenada.
Essa não é uma defesa romântica da indústria. É um argumento duro: sem uma economia robusta e lícita, a Amazônia vira contabilidade criminal.
Como demonstrar cientificamente: o caminho das “emissões evitadas atribuíveis”
Para sair da intuição e entrar na prova, é preciso encarar a pergunta que separa ciência de opinião:
Qual é o desmatamento que teria ocorrido na Amazônia Ocidental se o PIM não existisse?
Isso exige um desenho técnico em três camadas:
Camada A — O contrafactual (o “mundo sem o PIM”)
Criar cenários comparáveis usando:
- modelos econométricos (diferenças-em-diferenças; controles sintéticos)
- séries históricas de emprego, renda, migração, ocupação territorial
- comparação com regiões semelhantes sem um polo industrial equivalente
Camada B — A evidência física (o que a floresta mostra do espaço)
Usar sensoriamento remoto (desmatamento, degradação, queimadas), integrando:
- padrões temporais
- pressão de estradas e ramais
- dinâmica de expansão agropecuária e ocupação irregular
Camada C — A tradução climática (hectare → carbono)
Converter floresta preservada em CO₂ equivalente com metodologias reconhecidas, separando:
- desmatamento evitado
- degradação evitada
- incêndios evitados (quando houver robustez)
O coração ético disso é a palavra que mais incomoda: atribuição.
Não basta dizer “a floresta ficou”. É preciso provar quanto ficou por causa de uma arquitetura econômica específica.
O encontro decisivo: emissões industriais vs. “crédito territorial” de preservação
Uma vez estimadas as emissões evitadas atribuíveis ao PIM, vem o confronto que muda o jogo:
- Emissões do PIM (energia, combustíveis, processos)versus
- Emissões evitadas pela floresta preservada por efeito indireto do PIM
Se — e somente se — as emissões evitadas superarem as emissões geradas, abre-se a hipótese pública:
o PIM não apenas “reduz desigualdade”: ele pode operar como um mecanismo líquido de proteção climática.
E isso tem uma consequência brutal para o debate nacional:
o Polo Industrial deixaria de ser tratado como “custo fiscal” e passaria a ser reconhecido como ativo climático estratégico do Brasil.
O antídoto contra o greenwashing: governança, auditoria e transparência
Se o PIM quiser falar em neutralização, precisa fazer do rigor sua linguagem. Isso implica:
- um consórcio técnico independente (academia, institutos, auditorias climáticas)
- protocolos públicos de cálculo e revisão
- critérios explícitos de:
- adicionalidade (só conta o que não ocorreria sem o PIM)
- vazamento (se o desmatamento “migra”, o crédito diminui)
- permanência (o que se preserva precisa permanecer)
- incerteza (intervalos, margens, prudência)
O PIM não precisa de propaganda. Ele precisa de uma contabilidade moral e científica.
O horizonte: do “PIM econômico” ao “PIM climático”
Se o Amazonas — e suas entidades, universidades, centros de pesquisa, instituições de inovação — construírem essa demonstração, o Brasil ganhará algo que hoje não tem:
- um caso real de industrialização amazônica com racionalidade climática
- uma narrativa internacional baseada em método, não em retórica
- um caminho para financiamento climático sério, com credibilidade e lastro
E, internamente, o País será obrigado a encarar a pergunta que sempre evitou:
quanto custa desindustrializar a Amazônia — em desmatamento, carbono e violência econômica?
Em outras palavras:
a pergunta que reorganiza o mapa mental do Brasil
O Brasil está acostumado a medir fábricas pelo que emitem.
Talvez esteja na hora — com coragem técnica — de medir fábricas também pelo que evitam.
Porque, no fundo, a Amazônia não precisa apenas de guardiões armados.
Ela precisa de alternativas econômicas lícitas tão fortes que tornem a derrubada um mau negócio.
E então o mote volta — não como provocação, mas como agenda nacional:
o que significaria demonstrar, com ciência e transparência, que o PIM neutraliza — por preservação indireta — o carbono que emite?
Significaria isto:
que, no coração da floresta, o Brasil já possui uma política ambiental de alto impacto — e ainda não a tratou como tal.
(*) Follow Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal
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