03/09/2026
Em meio à aceleração da vazante dos rios na bacia amazônica e à preocupação crescente do setor produtivo, o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM) promoveu a 12ª edição do seu Fórum de Logística. O encontro, mediado pelo coordenador da Comissão CIEAM de Logistica, Augusto César Barreto Rocha, contou com a participação do presidentente executivo da entidade, Lúcio Flávio Morais de Oliveira, e recebeu representantes dos principais órgãos decisores da infraestrutura hidroviária do país: o diretor de Infraestrutura Aquaviária – DAQ do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), Edme Tavares de Albuquerque Filho, juntamente com o coordenador-geral de Obras Aquaviárias, Célio Reis; o Capitão de Mar e Guerra-Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental (CFAOC - Marinha do Brasil), André Lysâneas Teixeira Carvalhaes; e o Secretário Nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos, Otto Luiz Burlier da Silveira Filho (via videoconferência).

A pauta centrou-se em soluções emergenciais e estruturantes para garantir a trafegabilidade nos trechos mais críticos dos rios Amazonas, Solimões e Madeira, mitigando o risco de desabastecimento e novas interrupções severas no fluxo de insumos e produtos do Polo Industrial de Manaus (PIM).
Operações de dragagem e adequação técnica
O diretor de Infraestrutura Aquaviária do DNIT, Edme Tavares, anunciou a mobilização dos equipamentos e os investimentos em curso:
"Hoje nós temos quatro contratos de dragagem no estado do Amazonas e mais de meio bilhão de reais em investimentos em carteira somando essas frentes. A draga hopper já está instalada em Itacoatiara para operar no trecho com previsão de 1,8 milhão de metros cúbicos dragados, um aprendizado que nos permitiu adequar o equipamento à necessidade da navegação de longo curso. Cada centímetro que o rio desce afeta o frete, a geração de empregos e o desenvolvimento do país, por isso atuamos fortemente para manter os rios navegáveis", afirmou o diretor do DNIT.
Monitoramento da vazante e segurança marítima
O Capitão dos Portos André Carvalhaes, acompanhado do futuro comandante, Rodrigo Vieira, ressaltou a postura preventiva da Marinha do Brasil perante a estiagem:
"Ainda vivemos em um campo de incertezas em relação ao que vai acontecer na estiagem. Tivemos um ritmo de vazante no mês de agosto para as réguas de Manaus e Itacoatiara com intensidade acima da de 2023, o que nos obrigou a emitir comunicados balizados no pior cenário para que a indústria e os armadores pudessem se planejar. A chegada da draga hopper e a cooperação institucional nos dão esperança de mitigar as paralisações, mas a Amazônia precisa com urgência de investimento em pesquisa e dados de longo prazo para não vivermos apenas apagando incêndios a cada seca."
Investimentos e o modelo de concessões hidroviárias
Participando diretamente de Brasília, o secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier da Silveira Filho, reforçou o trabalho do governo federal e apontou alternativas para superar limitações orçamentárias:
"O setor hidroviário carrega uma dívida histórica perante o país, e só nesta gestão devemos alcançar quase R$ 2 bilhões em investimentos. Contudo, devido aos limites orçamentários do Estado brasileiro para atender a mais de 20 mil quilômetros navegáveis, defendemos no médio prazo o modelo de concessões hidroviárias. O objetivo é trazer operadores privados com contratos longos que assegurem manutenção e monitoramento 24 horas, o que reduz o custo do frete pela previsibilidade operacional. Queremos construir essa agenda ouvindo e convencendo a sociedade e o setor produtivo local", afirmou o secretário nacional.
Cobrança por dados científicos e cooperação técnica
Na moderação do fórum, o Professor Augusto, membro da Comissão de Logística do CIEAM, defendeu o investimento imediato em ciência regional para embasar decisões públicas.
"Tem sido muito caro para a indústria enfrentar a seca, foram cerca de R$ 3 bilhões de prejuízos acumulados nos últimos anos. Não faz sentido o país não viabilizar R$ 15 milhões ou R$ 30 milhões para projetos conjuntos com o Serviço Geológico do Brasil, UFAM, UEA e INPA para estudar a hidrodinâmica real dos nossos rios. A indústria é contra o aumento de custos e taxas adicionais, mas é parceira de primeira hora na cobrança técnica e na construção de saídas definitivas baseadas em dados", declarou o coordenador da Comissão.
Comprometimento institucional e corresponsabilidade
Encerrando os trabalhos do fórum, o presidente-executivo do CIEAM, Lúcio Flávio Morais de Oliveira, sublinhou o valor do diálogo transparente e convocou todos os elos da cadeia produtiva a assumirem um papel ativo na superação dos gargalos logísticos da região.

"Mais do que falar em instituições, é preciso reconhecer o comprometimento pessoal de cada gestor presente nesta mesa para enfrentar com clareza um tema tão sensível. No entanto, a indústria e a sociedade também precisam se perguntar se não são parte dessa solução. Quando olhamos para os bilhões em prejuízos acumulados nas últimas secas, fica evidente que precisamos encontrar mecanismos para destravar recursos, investir em pesquisa e desenvolvimento e atuar no modelo da tríplice hélice. Somente com união, acordos estruturantes e ação conjunta deixaremos de apenas remediar crises para construir saídas definitivas para a nossa logística", concluiu Lúcio Flávio.
Com o XII Fórum de Logística, o CIEAM reforça seu compromisso contínuo de antecipar soluções e blindar a competitividade de seus associados contra os impactos severos da estiagem. Para a Amazônia, onde os rios representam as verdadeiras rodovias de integração, a busca por previsibilidade logística transcende a defesa econômica: trata-se de garantir o abastecimento essencial das comunidades, a manutenção dos empregos e a sustentabilidade de um modelo de desenvolvimento indispensável para o país.
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