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Tecnologia é principal legado do PIM para a cultura de Manaus

Atualmente, o Polo Industrial de Manaus reúne cerca de 600 empresas de mais ou menos 30 países. Desde o primeiro momento, quando começaram a chegar as primeiras indústrias à capital amazonense, elas já traziam as bandeiras dos mais diversos lugares do planeta. Mas, será que tantas culturas diferentes reunidas numa mesma cidade conseguiu influenciar ou mudar a maneira de viver dos manauaras.

Vejamos o que acham o historiador, Aguinaldo Figueiredo, e o economista, Osiris Silva. “Diria que a grande responsável pelas mudanças ocorridas em Manaus a partir do início da década de 1970, foi a televisão, que chegou aqui com 19 anos de atraso mas, desde o primeiro momento, causou um reboliço”, lembrou o historiador Aguinaldo Figueiredo.

Oficialmente, a TV Ajuricaba entrou no ar em 5 de setembro de 1967, mesmo ano da instalação da Zona Franca, e não parou de se expandir, principalmente a partir da década seguinte. “Afirmo que a televisão contaminou Manaus com a cultura de massa. Para se ter uma ideia, a ascensão da TV foi tão poderosa que acabou com o futebol amazonense, sucesso de público nos estádios, antes; e um fracasso até os tempos atuais. E também acabou com as obsoletas salas de cinema existentes na cidade. As pessoas tiraram suas cadeiras das calçadas e se acomodaram dentro das casas, vendo filmes e novelas, evitando sair à noite”, ressaltou.

“Também houve a industrialização dos produtos, dos alimentos, das roupas, o prêt-aporter, do francês, pronto para levar, com produção feita em série para baratear o produto. Antes não se tinha enlatados na cidade. Se comprava nos mercados, feiras e tabernas, o peixe, a carne, a farinha, o arroz, o trigo, a manteiga, o pão”, lembrou.

“O supermercado Booth Line, inglês, foi um dos primeiros a vender enlatados em Manaus e surgiu o fast food. Antes da Zona Franca ninguém comia X isso, X aquilo, sanduíches que hoje são a coisa mais comum em qualquer lanche de esquina. Quanto às roupas, o jeans foi introduzido naquele período, com as calças Lee americanas, muito grossas, na cor índigo, resultado da anilização, estão aí até hoje”, informou. “Influências na nossa gastronomia diria que a mais forte foi a oriental.

As colônias japonesas de antes da Zona Franca, localizadas nas estradas, eram fechadas e a a sua cultura não era vista. Com a chegada das indústrias japonesas, começaram a surgir os restaurantes com comidas orientais”, falou.

Transferência de tecnologia como legado

Já o economista, consultor de empresas, escritor, ex-secretário da Indústria e Comércio e ex-secretário da Fazenda, Osiris Silva, disse não ver nenhuma influência, de nenhum dos países cujas indústrias foram ou estão instaladas no Polo Industrial, na cultura manauara. “Grandes empresas das maiores potências do mundo estão aí, do Japão, Estados Unidos, Itália, França, mais recentemente Coréia do Sul e agora China, mas em nada influenciaram ou influenciam na cultura local. Se falarmos, por exemplo, da comida japonesa, mas ela existe em todo o país, então não foi resultado da vinda dos japoneses para cá”.

E Osiris é mais incisivo. “Um legado que essas empresas poderiam deixar para Manaus, mas nesses 49 anos nunca insinuaram fazê-lo, é a transferência de tecnologia. Mas a culpa não é delas. É nossa, dos governos. Não temos sequer um parque tecnológico que possa absorver o que de bom essas empresas tem para repassar. As áreas de ensino, também vão no mesmo ritmo. Posso citar como bom exemplo, a Fundação Mathias Machline, hoje Fundação Nokia, mas fiquei sabendo que ela não está muito bem, depois de 30 anos de existência. Aqui em Manaus, como sempre foi, tudo começa bem, e logo adiante, acaba”, lamentou.

Veja bem, se uma empresa como a Honda decidir ir embora de Manaus, me indique uma empresa brasileira que seja capaz de produzir motos com a mesma qualidade da Honda. O mesmo acontece com todas as outras empresas do Polo. Não temos similares brasileiras absorvendo essas tecnologias”, observou.

“Após a Segunda Guerra, mesmo derrotados e destruídos, os japoneses copiaram o que de melhor a indústria americana possuía, e conseguiram melhorar ainda mais aqueles produtos passando a dominar o segmento de eletroeletrônicos no mundo. Os sul-coreanos fizeram a mesma coisa com os japoneses e vejam aonde eles conseguiram chegar, de país pobre que eram há algumas poucas décadas. Por que o Brasil, e nós que estamos com as indústrias de ponta aqui dentro, não fazemos o mesmo? É como se tivéssemos a sina de esperar que as coisas venham até nós. Sempre foi assim. Vejam a borracha, único país a possuí-la no mundo e acabamos por perdê-la para outros países. Será que vamos ter que esperar mais 50 anos para que as coisas mudem, os amazonenses acordem para as realidades que aí estão, e o modelo Zona Franca possa beneficiar o interior do Estado?”, indagou.

Fonte: JCAM

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