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Tabus que impedem a competitividade

Augusto Rocha

Publicado pelo Amazonas Atual

No Parque Nacional de Bouma, nas Ilhas Fiji, o linguista R. M. W. Dixon, em 1985, pesquisou um dialeto local, onde o termo “tabu” era usado como algo sagrado ou com restrições espirituais, envolvendo regras e proibições. A palavra inglesa “taboo”, adveio de contatos dos ingleses com Tonga, em 1777. A palavra se espalha por toda aquela região com este signicado. Por aqui, segundo o Dicionário Houaiss, o vocábulo possui o mesmo sentido, tendo origem no século XX e arrisco dizer que o adotamos por inuência inglesa.

Em minha visão, muitos tabus são feitos para amedrontar, evitando luz sobre uma determinada questão, por diversas razões. Quanto mais tabus possui uma sociedade, mais prevalece o medo, a subserviência e a falta de liberdade, em razão da ignorância, no sentido puro e simples de ignorar determinados assuntos, sem qualquer senso pejorativo, pois as vezes é até melhor ignorar do que conhecer. Por exemplo, Roberto Benigni ganhou fama internacional com o lme “A vida é bela”, por manter seu lho Giosué ignorando os horrores da guerra e permitindo a esperança. Ou seja, por vezes, pode até ser melhor manter a inocência.

Em Manaus também construímos alguns tabus, talvez sem nos darmos conta. Semana passada escrevi o texto “Buracos da Competitividade”, a respeito do estado lastimável das vias do Distrito Industrial (aproveito para reticar a autoria da música Gentileza, é de Marisa Monte, mas naquele texto indiquei outra autora, por conta de fonte que validou meu erro de lembrança musical). Com curiosa repercussão, recebi respostas, de diferentes formas, explicando o porquê da demora, mas nenhuma resposta com o prazo para se resolver ou como evitar que o problema se repita. É como se houvesse algo intocável ali. Um tabu está estabelecido. Há ali uma máquina burocrática que atrapalha a solução: tabu instalado com sucesso.

Outro tabu que vivemos é a falta de capacidade de enfrentar os pontos fracos da Zona Franca de Manaus (ZFM). Por que temos tanta diculdade de analisar sem paixões exageradas os pontos fortes e fracos da ZFM? É um tabu perigoso, que precisa ser esfacelado. Um estudo realizado recentemente pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), por patrocínio do Cieam, Fieam, Abraciclo, Eletros, Bemol, DD&L Associados, Fogás e Whirlpool, começa a colocar luz sobre estas questões. Que seja bem-vindo este estudo e obrigado aos patrocinadores por terem a coragem de colocar alguma razão sobre este Projeto.

Manaus, o Amazonas e a Amazônia Ocidental podem tirar muito mais proveito da ZFM se conseguir compreender o que funciona bem e o que não funciona bem. Entretanto, precisamos ter a coragem de enfrentar os problemas ao invés de criticar as pessoas. Será que teremos mais maturidade para lidar com este assunto neste momento de país, onde a tendência é que prevaleça o liberalismo? Nosso comportamento permitirá isso? Espero que o estudo aponte pontos fortes e pontos fracos da nossa realidade, bem como ameaças e oportunidades.

Tem sido uma dificuldade, o enfrentamento dos pontos fracos e o aproveitamento das oportunidades. Estamos cheios de tabus. Eles nos fazem ignorar a realidade do interior do Estado ou as necessidades dos demais Estados. Quando superaremos isso? Será que agora estamos dispostos a ouvir críticas e responder sem atacar quem critica? Quando haverá um porto lindo e compatível com a beleza dos Rios do Amazonas? O que falta para a sua construção? Quando o Distrito Industrial estará sem buracos? Quando teremos uma rodovia BR-319 com as necessárias proteções ao meio ambiente? Quando usaremos responsavelmente a nossa madeira? Quando produziremos peixes para o mundo?

Quando enfrentaremos as nossas dificuldades, sem colocar tabus, tábuas e fossos no meio das discussões? Fica a torcida que este estudo da FGV comece a quebrar nossos tabus e nos fazer conversar calmamente com paulistas, paraenses e manauaras que fazem perguntas inconvenientes. Anal, perguntas nem sempre são ataques. Elas podem simplesmente ser o convite para romper a inércia ou erros não intencionais.

*Professor da Ufam e empresário

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