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O Amazonas precisa acordar

Por Gina Moraes de Almeida (*)

ginamoraes@me.com

Desde os anos de 1990, o Amazonas vive uma comédia ridícula e desnecessária chamada recuperação da BR- 319, a Rodovia Manaus-Porto Velho, que já ligou por quase duas décadas o Amazonas ao resto do país. Ou seja, não se trata de um novo projeto – com todo o calhamaço legal de proibição de mexer na floresta – mas apenas de recuperação viária, sem risco de destruição dos estoques naturais. Muito pelo contrário! Essa estrada geraria os recursos necessários para sua manutenção e conservação socioambiental.

Trata-se, na verdade, de mais uma comédia federal e, sobretudo, de mais uma prova da fragilidade de nossa advocacia política, numericamente reduzida e historicamente desunida. E o que é mais triste: a tragicomédia atesta os prejuízos e o constrangimento que a falta de união entre os diversos segmentos sociais têm causado a cada um de nós.

Todos nós sabemos as diversas razões para a paralisação da obra e empurramos para debaixo do tapete os motivos reais dessa hipocrisia institucionalizada.

Em dez anos, foram gastos, em estudos de viabilidade econômica e ambiental, segundo o DNIT – órgão do ministério dos Transportes encarregado do imbróglio – mais de R$ 200 milhões, suficientes para recuperar a rodovia.

Este órgão público já repetiu várias vezes que não há veto ambiental consistente. O que leva à conclusão de que esta comédia, com reflexos trágicos na competitividade logística regional, tem sombrias motivações. Quem se locupleta com o oportunismo em detrimento do interesse público?

Novela rodoviária

No portal da Rede Amazônica qualquer um pode acessar uma série de reportagens sobre essa novela rodoviária –“BR 319, o caminho da esperança” – realizado há pouco tempo, mostrando o abandono da estrada, sua história de aventuras e registro dos depoimentos de usuários do passado, as promessas políticas de recuperação e uma denúncia grave.

Depoimentos e imagens revelam a ocorrência de bombardeios criminosos – estranhamente jamais apurados por quem de direito ou atribuição legal – para complicar sua recuperação. Saber quem poderia ganhar com isso não nos compete, nem interessa aqui especular. A todos importa supomos, entender porque situações como esta se arrastam impunemente, com danos de toda ordem, em todas as direções, para todas as pessoas…sem que nada seja feito pelo conjunto da sociedade.

Sem estrada, e à mercê das taxas logístico-portuárias mais caras do Brasil, incluindo o preço da cesta básica, com o feijão e arroz de cada dia, quem é prejudicada é a população. A indústria perde em competitividade, e as pessoas cerceadas no direito constitucional de ir e vir, de conhecer a beleza da própria terra, fazer um turismo doméstico ou investir em negócios da agricultura familiar ou manejo da biodiversidade.

Pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), há anos, apontam as oportunidades de aproveitamento inteligente de milhares de espécies amazônicas, com destaque para as palmeiras de buriti, patauá, açaí, copaíba, andiroba, pau rosa, que a indústria da beleza apreciaria transformar em ativo mercadológico.

Sono alienante

O Amazonas a tudo assiste, em sono alienante, sem qualquer mobilização critica ou combate eficaz de seus representantes. Parece ser oportuno ficar próximos ao poder central, mesmo que isso não represente benefício ao tecido social, ao povo do Amazonas. E temos, por isso, padecido muitas perdas.

Vejamos: fomos excluídos do Plano Nacional de Banda Larga, apesar de ter a mais precária e onerosa comunicação digital; fomos incluídos no Operador Nacional do Sistema para pagar energia mais cara. Fomos impedidos de produzir placa de energia solar, embora tenhamos mais de 30% do território mantido por caríssimas e precárias termelétricas movidas a diesel.

Não temos porto público, e assistimos à mobilização de muita gente graúda, na política, na economia e na academia, para impedir iniciativas locais de modernização portuária. Inventaram levianamente que um porto seria capaz de destruir o Encontro das Águas, tudo para defender interesses inconfessos e escusos.

Somos, de forma espúria, excluídos de todos os bailes de modernização. Isso porque somos um dos oito Estados que mais recolhe do que recebe recursos da União. Ajudamos, portanto, a carregar o Brasil nas costas. E pra quem podemos nos queixar? A ninguém, posto que a solução está em nossas mãos, na força esquecida de nossa união. Acorda, Amazonas, podemos fazer acontecer dias melhores!

(*) Gina Moraes de Almeida é advogada e colunista do portal Amazonas Atual

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