Follow Up

​Nota de Pesar: José Márcio Mendonça

O Cento da Indústria do Estado do Amazonas, através de seu presidente, Wilson Périco, tem o dever de registrar o falecimento do jornalista José Márcio Mendonça, talento e dedicação de quase 50 anos a um jornalismo focado na brasilidade. Política, economia e cultura ficarão defasados de um combativo brasileiro de Guarani, Minas Gerais. Ele faleceu no último domingo em São Paulo, por insuficiência respiratória.

Nesta edição, prestamos uma homenagem a José Márcio que, desde 2016, integrou a equipe de colaboradores do CIEAM no desafio de criar espaços para o Amazonas, a Amazônia, nossa economia, acertos e oportunidades. Nunca o Amazonas e a indústria instalada em Manaus teve tanto espaço na mídia do Sudeste. Infomoney/Bloomberg, DCI, Estadão, Folha de São Paulo, foram arena de mais de uma centena de artigos de economia, logística, competitividade, educação, clima, biotecnologia e tecnologia da Informação. Em agosto daquele ano, traduzindo sua percepção sobre o descaso insensato do Brasil em relação ao Amazonas, nossa região, deu essa entrevista a Follow Up, que hoje se presta a uma singela homenagem de agradecimento a sua robusta contribuição para a Zona Franca de Manaus e nossa gente..

Amazônia: as trilhas de uma nova economia

Entrevista com o jornalista José Márcio Mendonça – Infomoney

“Mudanças na economia sempre escondem oportunidades, o desafio é identifica-las”

O fim do emprego é um anúncio, aparentemente catastrófico, utilizado para chamar a atenção dos atores do setor produtivo e do poder público. Estes, responsáveis por gerar mão de obra, vital para a dinâmica social vigente, e aqueles desnorteados pela rapidez com que os tempos corroem a ordem produtiva/industrial historicamente consolidada. José Márcio Mendonça é um profissional da informação, um jornalista da chamada velha guarda – profissional há mais de 40 anos, especializado em assuntos brasileiros, escreve atualmente no blog Política & Economia – na Real do Portal www.infomoney.com.br. Editor de política e de economia e do caderno da cultura do Jornal Tarde e diretor geral e diretor de jornalismo da Rádio Eldorado em São Paulo, JMM FOI editorialista do Jornal da Tarde por 17 anos e diretor de redação da sucursal dos jornais “O Estado de S. Paulo” e “Jornal da Tarde” em Brasília… – que se antecipou aos estragos que a modernidade digital provocou nos negócios da imprensa. “O bom jornalista é aquele que busca se antecipar as mudanças, tratando a notícia na crueza de sua mensagem, seja lá qual for o veículo”. Para Márcio, essas mudanças na economia sempre escondem oportunidades, o desafio é identifica-las.

Eis a entrevista.

FOLLOW-UP – A economia digital associada à robótica – duas realidades dos tempos modernos absolutamente irreversíveis – desencadearam o desemprego no modelo clássico de produção industrial. Como utilizar esses instrumentos para criar novas saídas?

José Márcio Mendonça: É muito importante anotar que essas mudanças na economia sempre escondem oportunidades, o desafio é identifica-las A própria tecnologia cria novas brechas de emprego, ou seja, uns são destruídos outros aparecem. Portanto, a primeira saída é retreinar a mão de obra para essas novas realidades, novas oportunidades. Porém, sabe-se que o número de empregos a serem criados nunca será o mesmo que existia até então. A tendência da civilização é o ócio, o que os italianos chamam de “dolce fare niente”. Naturalmente, que convém a este ser criativo. Assim, é preciso também descobrir “novas” atividades, e um dos grandes negócios pode estar na chamada economia criativa, no desenvolvimento da biotecnologia, ou na tecnologia da informação e da comunicação, no caso aqui da Amazônia, com esse acerto monumental de floresta e genética, a busca de novos fármacos, da cosmética e da indústria nutracêutica, a partir da biodiversidade. Aqui, quem prestar atenção, vai descobrir as trilhas de uma nova economia.

FUp – O governo da Coreia do Sul anunciou recentemente o investimento de mais de US$ 2 bilhões, para atrair empresas privadas, em P&D, pesquisa e desenvolvimento, de nove áreas da economia voltadas ao futuro, priorizando inteligência artificial, realidade virtual, materiais leves, utilização do carbono, biotecnologia voltada para Medicina, entre outros. Como interpretar essa tendência à luz da indústria brasileira e da ZFM?

JMM – Inicialmente, é preciso observar que o governo coreano está procurando sair na frente na conquista dessa “nova economia”. Nada como ter na concorrência China e Japão, para apostar na liderança tecnológica. Para a ZFM penso que há um espaço extraordinário a partir dessa mesma experiência que a Coreia do Sul está tentando. A biodiversidade amazônica é muito mais rica, em sua fauna e flora, que a coreana. É preciso envolver num grande projeto o setor privado, a universidade e o poder público. É inaceitável que o Brasil tenha menos de 1% de seus cientistas atuando na Amazônia, onde o mundo civilizado está de olho desde a descoberta da América. Os países centrais já teriam posto milhares de cientistas e laboratórios para planejar e implantar um futuro mais saudável e mais próspero.

FUp – A ZFM, assim como todos os temas, problemas e acertos e necessidades da Amazônia, são excluídos da mídia do Sudeste. A que você atribui essa tendência e como contorna-lá num contexto de comunicação de redes sociais?

JMM – A Zona Franca, por causa desse distanciamento, sempre foi vista, fora de seu próprio território, como uma parasita, que explora as outras regiões, tira-lhes emprego e empresas e tem incentivos inadmissíveis. É “cara” no sentido oneroso para o Brasil e não dá retorno. O que há, de fato, é uma desinformação sobre os efeitos benéficos da Zona Franca para o pais, não apenas do ponto de vista econômico mas também e principalmente do ponto de vista socioambiental. Graças a esta economia diferenciada o Brasil resguarda seu patrimônio genético e o Sudeste tem água em seus reservatórios. Não fosse a ZFM o estrago seria incalculável. Quem sabe disso? A ZFM sempre perdeu a batalha da comunicação, seja por omissão de seus gestores, seja por falta de argumentos bem elaborados para se contrapor às críticas. A opinião pública do Sul-Sudeste ignora os efeitos positivos da região. O grande desafio é começar a ganhar esta batalha, não só no Sul e no Sudeste, mas, se possível, envolvendo a mídia internacional, hoje muito sensível às questões da economia sustentável. O uso das mídias sociais hoje é essencial, os próprios meios tradicionais de comunicação não desprezam esses veículos hoje. São mais eficazes e mais baratos, assim como os produtos fabricados em Manaus. Esses produtos seriam mais baratos se o Brasil olhasse a região e lhe desse infraestrutura competitiva.

FUp – 1/5 da água doce do planeta e um 1/5 da biodiversidade conhecida pertencem ao Brasil e estão na Amazônia. Como precificar e rentabilizar esses ativos na nova economia que se impõe?

JMM – Esta é uma pergunta que eu diria que vale um milhão de dólares: como precificar os benefícios socioambientais gerados pela ZFM? Creio que o Brasil tem hoje uma enormidade de pesquisadores, em diversas universidades, como o a Fipe da USP em São Paulo, na FGV em São Paulo e no Rio capazes de desenvolver – se ainda não desenvolveram ou estão desenvolvendo – modelos matemáticos para fazer esse tipo de precificação. No caso também acho que seria útil pesquisar junto aos organismos internacionais ambientalistas, se eles não possuem modelos para isso. As métricas do patrimônio natural amazônico é o começo de uma boa e proveitosa conversa planetária. E o Brasil precisa voltar-se para a Amazônia, ou seja, para si mesmo, e começar a negociar vantagens pelos serviços ambientais que a Amazônia presta a outras regiões e que o país oferece ao mundo.

FUp – A Indústria do ócio responde por 9% do PIB inglês. Como incentivar essa economia na realidade amazônica?

JMM – Estamos caminhando para o que poderíamos chamar de uma indústria da informação, do conhecimento e do ócio. O mundo fabril perde a importância relativa, mas é dele ou deveria ser a iniciativa de sua evolução e ajuste aos novos tempos. A Inglaterra, além de faturar com esta indústria neste PIB promissor, exibe uma taxa de emprego da ordem de 6% com a indústria criativa. Em São Paulo, na glamorosa Vila Madalena, os ingleses abriram uma escola para evoluir a indústria da criatividade, do ócio proveitoso. De quebra, eles treinaram no Reino Unido, 5500 brasileiros, atraídos pela nova “revolução industrial”. O poder vai estar, cada vez mais com quem tem informação e conhecimento. Esse novo espaço produtivo a que chamamos indústria criativa – que reúne toda a área cultural e de divertimento, design, arquitetura, produção de software e de aplicativos, moda, turismo, onde a força da criatividade, da capacidade inventiva é o ativo preponderante. Ela é altamente empregadora, porque não pode ser inteiramente nunca substituída por máquinas. Os ingleses estão investindo pesadamente nessa área, inclusive aceitando importação de produtores culturais. Antes de se inventar o termo “indústria cultural” os americanos a exploravam a seu favor com o cinema, a massificação da música. Inclusive com interesses também político-ideológicos. Os ingleses estão indo adiante…

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Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. cieam@cieam.com.br

Publicada no Jornal do Commercio do dia 24.01.2018





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