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Gás congelado pode ser nova opção energética para o Amazonas

Notícia publicada pelo Em Tempo Online

Nos próximos dois anos, o Polo Industrial de Manaus e o comércio, além de grande parte da frota de veículos de serviços públicos, podem estar se movimentando com energia bem mais barata e 40% menos poluente que o óleo diesel. A Amazonica Energy anunciou a implantação de infraestrutura para importação, estoque e movimentação de Gás Natural Liquefeito (GNL) no estado do Amazonas, com entrega em Manaus a partir de 2021.

Um conjunto de empresas multinacionais se uniram para disponibilizar o GNL em larga escala para toda a Amazônia Brasileira, usando principalmente os 23 mil km de malha fluvial que dão acesso aos municípios do Amazonas, Rondônia, Roraima, Acre e Pará. Com a implantação de uma infraestrutura de GNL, consolida-se uma nova configuração da matriz energética na Região Norte do Brasil, O GNL importado é um insumo mais barato que outros combustíveis líquidos e com menor impacto ambiental na região, podendo reduzir em torno de 40% as emissões de CO2 na atmosfera.

Essa estrutura vai consumir investimentos de parceiros internacionais da ordem de R$ 3 bilhões e numa boa expectativa gerar, segundo estimativas, a implantação de 800 a 1.500 empregos diretos, com transferência de conhecimento sobre operações nas cadeias de operação movimentação e regaseificação do combustível.

O gás será extraído e liquefeito no Golfo do México, Estados Unidos, chegando ao Norte do Brasil em navios tanques, conhecidos por metaneiros. Em Itacoatiara, será feito o transbordo do navio tanque para o navio de estocagem (FSU – Floating Storage Unit), fundeado em Itacoatiara. A distribuição às usinas de regaseificação, será feita em comboios de barcaças projetadas para navegação em calado raso, de 2 metros de profundidade, construídas na região e transportadas por empurradores movidos a gás natural.

Os estudos indicam que, com a distância percorrida e o meio de transporte usado, ainda assim o gás deverá chegar ao Brasil e ser entregue aos consumidores em valores substancialmente menores do que os praticados para outros combustíveis fósseis vendidos em Manaus e nas capitais da região Norte.

Apoio e capital político

O CEO da Amazonica Energy, Marcelo Araújo, mantém uma série de reuniões em Manaus com parceiros estratégicos da região, acompanhado de executivos da Mitsubishi Corporation do Brasil, para apresentar estratégias de movimentação do GNL. Em reunião com o grupo, o deputado Wilker Barreto, presidente da Comissão da Indústria e Comércio da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), acolheu bem a proposta apresentada para o Amazonas.

“É um passo importante para consolidar a competitividade e a atração de novas empresas ao Polo Industrial de Manaus, o que deve gerar mais postos de trabalho nesse momento de mudanças e algumas incertezas” defendeu Wilker.

Ulisses Tapajós, ex-secretário de finanças da Prefeitura de Manaus e, mesmo aposentado, um dos nomes mais respeitados do PIM, vislumbrou diversas aplicações do gás para alavancar a economia do Estado. “Esse é um projeto de desenvolvimento que faço questão de apresentar aos mais diversos segmentos da indústria e ao comércio” destacou Ulisses.

Distribuição

O projeto de distribuição do gás criogenado ocorrerá em duas fases. A primeira será organizar a distribuição de Itacoatiara para Manaus, seguido de Porto Velho (RO) e Boa Vista (RR), consumindo de 2 a 3 milhões de m3/dia, o que viabiliza o projeto economicamente. A segunda etapa será voltada para o Estado do Pará. Juntos, esses mercados podem evoluir gradativamente ao consumo de 10 milhões de m3/dia numa perspectiva de médio e longo prazos em atividades industriais, geração de energia e mineração, além de fomentar grandes projetos comerciais e novas termelétricas, onde não há energia, atualmente.

A navegação pode ficar mais barata, usando o gás como combustível e movimentando ainda mais a imensa malha fluvial. As cidades maiores ainda podem usar o GNL para abastecer o transporte público, carros de polícia e ambulâncias, que gastam fortunas em diesel e gasolina, ajudando a poluir as cidades.

O GNL é transportado a uma temperatura de 160 graus negativos, portanto, sem perigo de explosões ou outros riscos, pois evapora quase que instantaneamente. Para virar combustível precisa passar por uma estação de regaseificação portátil, algumas de grande porte e outras de pequeno porte, dependendo da demanda de cada cliente. Essas estações poderão ser financiadaa por bancos de desenvolvimento, como o Banco da Amazônia, que tem conhecimento do projeto e enxerga uma boa demanda de negócios para médios e grandes consumidores.

Essa disponibilidade do GNL para a Amazônia Brasileira conta com empresas parceiras da Europa, Ásia e América. A Mitsubishi Corporation é uma dessas parceiras e possui concessão para explorar o gás no Golfo do México, fazer a liquefação nos Estados Unidos e transportar em navios metaneiros até o estoque, em Itacoatiara.

A experiência da Mitsubishi com a exploração de gás ocorre desde 1964 e hoje é a 7ª empresa no ranking mundial, produzindo 8 milhões de toneladas de gás ao ano. A parceria com a Amazonica Energy é a entrada estratégica numa região de interesse mundial e ainda assim desassistida de ações concretas que elevem o desenvolvimento.

O navio metaneiro chega ao Brasil e sobe o Rio Amazonas até encontrar o navio de armazenagem, fundeado no município de Itacoatiara, distante 280 Km de Manaus. A cidade possui portos importantes para o embarque e exportação da produção de grãos do norte de Mato Grosso e Rondônia.

O local escolhido para a estrutura logística de recebimento do gás está às margens do rio Amazonas, com boa profundidade o ano todo, requisito importante para o posicionamento de uma base flutuante que vai receber o navio de estocagem do gás e, a partir daí, liberar as balsas para as entregas nas calhas dos rios do interior e, com acesso terrestre à Boa Vista, pela BR-174.

Em 2018, a Amazonica Energy recebeu da Agência Nacional de Petróleo e Gás, ANP, a autorização para operar e comercializar gás natural em território brasileiro. “O Brasil precisa ser mais competitivo e para isso a legislação sobre gás natural precisa evoluir” afirma Marcelo Araújo, que já foi consultor da Petrobras e passou por algumas gigantes internacionais do setor.

Atualidade

A falta de energia segura foi sempre um gargalo para o desenvolvimento econômico do Amazonas. Com os reservatórios baixos, devido às chuvas irregulares, o restante do Brasil passou a viver esse pesadelo. Ao mesmo tempo, o Polo Industrial de Manaus busca apresentar sua importância socioambiental e econômica para ganhar visibilidade junto ao novo governo federal.

A Fundação Getúlio Vargas (FGV) publica um importante estudo que enquadra melhor os números que são apresentados rotineiramente aos defensores e aos algozes da Zona Franca de Manaus. O estudo conclui que o PIM gera equilíbrio para a proteção da floresta. Apesar disso, o Amazonas encolheu de 17,1 para 8,5% sua contribuição em apenas 9 anos. Esta posição deixa o estado em 7º lugar no ranking de arrecadação federal.

A situação atual gera vulnerabilidade para a floresta e seus ecossistemas. O estudo analisou o histórico e concluiu que quanto menor a produção do Distrito Industrial, maior foi a investida e agressão do homem ao meio ambiente.

O Governo do Estado estuda e ensaia novas formas de diminuir a dependência ao modelo Zona Franca de Manaus. Em paralelo, as empresas buscam competitividade para se manter produzindo no Amazonas. A ZFM ocupa posição estratégica fundamental que vai além do desenvolvimento econômico e da qualidade de vida dos cidadãos.

A Amazonica Energy “viu nesse panorama de incertezas um ambiente fértil de oportunidades´, declara Marcelo Araújo. Com o GNL abrem-se novas perspectivas e já há interesse, inclusive, de uma gigante da siderurgia se instalar no PIM nos próximos anos, como desdobramento dos investimentos nessa nova matriz energética.

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