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Efeito dólar com variação cambial acende alerta na indústria do PIM

Notícia publicada pelo Jornal do Commercio

A retomada da trajetória de alta do dólar, nesta segunda (19), foi mais um fator de preocupação para a indústria incentivada do PIM, dado o impacto direto no custo dos insumos. A dúvida das lideranças classistas é se a elevação faz parte da crônica de sobe e desce do câmbio em um período conturbado na economia global, ou se a tendência será de alta para os próximos meses.

A moeda norte-americana já havia voltado a superar a barreira dos R$ 4 na semana passada, com alta de 1,57% no período. Os números foram impactados fortemente pelo pânico nos mercados financeiros em meio a temores de uma nova recessão global e após a divulgações de dados mais fracos do que o esperado para as economias da Alemanha e da China.

Na segunda, o dólar chegou a superar a marca dos R$ 4,07 pela primeira vez desde meados de maio, fechando o dia a R$ 4,068 na venda, alta de 1,60% e o maior valor desde 20 de maio. Contribuíram para o resultado as discussões sobre o espaço para mais cortes de juros na economia norte-americana, bem como a escalada das tensões comerciais entre EUA e China.

A volatilidade da divisa estadunidense é prejudicial aos custos da indústria do ZFM, conforme os dados mais recentes da Suframa. O dispêndio com aquisição de partes e peças para produção (US$ 13.78 bilhões) correspondeu a mais da metade do faturamento global das empresas no mesmo período (US$ 25.35 bilhões). E o capital empregado com insumos importados (US$ 8.92 bilhões) respondeu por 64,73% desse passivo.

Segmentos industriais de tradição na Zona Franca, como o eletroeletrônico, de bens de informática e relojoeiro, são mais vulneráveis às oscilações cambiais, já que contam com percentual mais elevado de insumos importados sem disponibilidade para substituição no mercado doméstico.

Corte nas margens

“O cenário já não bom e essa alta deixou tudo muito pior. O problema é que nossos custos são atrelados ao dólar, mas nossos ganhos vêm de preços de venda fixados em reais”, lamentou o vice-presidente do Sinaees (Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus), Celso Piacentini.

O dirigente diz que esperava um cenário mais confortável para o dólar e outros indicadores macroeconômicos, dado progresso das reformas no Congresso. Diante do encarecimento do fator de produção, muitas empresas se veriam levadas a repassar o custo ao consumidor. Mas, segundo Piacentini, a maioria das indústrias deve absorver o impacto para não reduzir a demanda.

“Isso depende geralmente do mercado e de cada empresa, mas acredito que a maioria vai acabar achatando ainda mais as margens de lucro. Infelizmente, estamos em uma fase terrível para indústria, em que não faltam fatores para reduzir a estabilidade e os ganhos do setor”, Celso Piacentini

Nacionalização e prospecção

Vice-presidente da Fieam e presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, entidade patronal que conta com fabricantes de bens intermediários e finais do polo de duas rodas entre seus associados, Nelson Azevedo observa que o segmento pode contar com maior índice de nacionalização em seus componentes, mas ainda depende de importados para produzir.

“Um dólar mais alto em um período prolongado, associado com baixa demanda, pode reduzir produção, investimentos e empregos, já que as fábricas trabalham com uma previsão de faturamento. Mas, ainda não vemos sinais nesse sentido. O que temos visto em agosto é uma maior prospecção de negócios dos fabricantes de bens finais junto aos componentistas locais, o que aponta para perspectivas de aumento de produção”, ponderou.

O vice-presidente da Fieam ressalta, contudo, que uma cotação dólar/real muito baixa – a exemplo do ocorrido uma década atrás – também pode desestimular a produção industrial local, ao tornar produtos importados acabados mais atraentes que os similares brasileiros e da Zona Franca.

“O ideal seria que o dólar não tivesse passado dos R$ 3,70, como estava algum tempo atrás, embora o patamar ainda fosse elevado. Esperamos que essa guerra comercial entre Estados Unidos e China diminua logo para dar um pouco mais de fôlego ao câmbio e às empresas”, finalizou.

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