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De novo, as moscas da praça pública

“O povo não tem a dimensão do que é grande, quer dizer, o que cria. Mas dá sentido a todos os apresentadores e a todos os comediantes”

Friedrich Nietzsche

A Revolução dos Bichos, a obra mais popular do filósofo e jornalista George Orwell (1903-1950), deveria ser leitura obrigatória para quem quisesse entender o que é ideologia e como essa palavrinha explica algumas esparrelas da democracia quando alguém resolve manipular a consciência dos outros para se dar bem. No livro, Orwell conta um processo revolucionário que se dá numa fazenda onde os bichos resolvem tomar o poder por ouvir falar que os humanos são perversos, autoritários e hipócritas. Sob essas verdades fabricadas por algumas lideranças dos animais, no caso, os porcos, os animais se insurgem contra os humanos e lhes tomam o poder. Em pouco tempo, as novas lideranças começam a fazer, exatamente, o que faziam os humanos, de modo perverso, autoritário e hipócrita. O que levam novos grupos a se organizar para remover os corruptos e lhes tomar o lugar.

A busca dos inimigos

George Orwell percebeu, como ninguém, as estratégias da pseudo-Democracia aí presente, Pode dizer-se que a busca de inimigos e a invenção de adversários foi um dos temas principais da obra do filósofo inglês. Isso permeia a sua ficção e os seus ensaios políticos. Ele decifrou a política do ódio organizado que resulta dos fantasmas e das tramas da perturbada imaginação moderna como mais ninguém na literatura e na filosofia. Recentemente o Brasil foi sacudido por essa esparrela, inicialmente, pelo “nós contra eles” do PT para insuflar luta de classes, e depois, com a mesma estratégia ideológica do outro extremo, à Direita política, assistimos ao nascimento de novos salvadores da Pátria com a criação dos inimigos carimbados de membros da “velha política”. Nessa terça-feira, a votação da admissibilidade da Reforma da Previdênciamostrou que o Congresso, da “nova política” nada mais é o mais do mesmo, que deixa a camiseta vermelha debaixo do paletó para tingi-la de verde-amarelo. Uma revolução manjada e surrada dos mesmos bichos que, de novidade, só tem o formato da cara e do crachá. Na ZFM, há mais ou menos 52 anos, a coisa funciona assim, na leitura inteligente de Augusto Rocha, nosso empresário, acadêmico e editorialista. Confira.

ZFM: a eterna busca de um inimigo externo

Augusto Barreto Rocha

Inimigos externos são ótimos para unir a população de uma região. Na Zona Franca de Manaus (ZFM) estamos sempre com inimigos externos, podendo ser São Paulo, Piauí ou algum Ministro de plantão. Sempre nos sentimos atacados e com isso buscamos alguma reunião de interesses comuns, enveredando por um combate que envolve a proteção de benefícios fiscais (legais e ainda fundamentais, diga-se de passagem). Não me lembro de outro tema que una tão fortemente o Amazonas quanto este. Isso é ótimo, pois há uma pauta em comum.

Entretanto, este samba de uma nota só pode nos transformar em vítimas de fato. Afinal, todos nossos ovos estão vindo de uma única cesta e de uma única galinha que coloca os tais ovos de ouro. E como esta galinha vem sendo tratada? Ruas esburacadas, regras instáveis, falta de clareza para novos produtos e várias outras formas de descrédito. Tanto que o resultado é declinante em dólar, mesmo sem descontar a inflação. Há um resultado declinante e não se verificam preocupações ou ações contra isso.

De que é composto o PIB do Amazonas?

O mundo cada vez mais tende a ter barreiras comerciais e tributárias reduzidas, mas parece que negamos a considerar isso como inexorável. É quase como negar a globalização (sei que há quem acredite nisso). E o que temos feito para trazer alternativas econômicas para o Estado do Amazonas? Quais as atividades produtivas alternativas? Quais são os outros componentes do PIB do Estado que não dependem direta ou indiretamente da ZFM? Eles crescem?

Enquanto não existirem ações concretas seremos escravos de uma única fonte de emprego, imposto e receita para cá. É fundamental que se crie algum senso de urgência e que as lideranças comecem a lutar pelo fim das desigualdades que nos compelem a ter a ZFM com este papel tão relevante. Quando ela tinha um prazo relativamente curto, isso era visível, mas com a perigosa prorrogação de 50 anos, o problema parece ser da próxima geração… e no Brasil quem está preocupado verdadeiramente com a próxima geração?

“Nós temos sede de que?”

Entendo que devem existir ao menos duas frentes sobre esta questão: (1) Esforço conjunto pela preservação das vantagens comparativas daZFM; (2) Busca frenética por meia dúzia de alternativas para o Amazonas, conjugada com a resolução dos problemas históricos de infraestrutura. Se não existirem esforços nas duas direções estaremos sempre com esta espada de Dâmocles pairando sobre nossas cabeças. Ótimo para masoquistas e vendedores do medo. Se o leitor não percebeu, US$ 25.35 bilhões faturados no ano passado é um encolhimento, e nem foi preciso descontar a inflação em dólar. O que se faz? Busca-se uma conversão para Reais, tentando encontrar sucesso em meio ao fracasso. Quando se olham empregos (mesmo sem considerar o crescimento vegetativo da população), também se verifica encolhimento. O que se faz? Busca-se a média de emprego mensal. Ora, seguimos em um processo crônico de negação de uma crise. Em 2011 se faturou US$ 41.237 bilhões. Um número semelhante ao último ano foi 2007 – US$ 25.671 bilhões. Quando assumiremos que estamos em crise?

Somos coitados ou sem-vergonhas? A ZFM está e segue em crise. Por que temos medo de afirmar isso com todas as letras? Afinal, um segundo fator para união de uma sociedade é um forte desejo de sair de uma crise.

Países ricos quando não têm crises, inventam crises ou guerras, para manter o ânimo forte. Temos realmente este forte desejo ou será melhor sermos os coitados do Norte que precisamos de apoio para manter a benesse fiscal eternamente? O que gostaria de ver além de uma forte união contra os inimigos da ZFM seria um forte desejo e um conjunto de ações para sair da crise. Gostaria de ver uma ampla união a favor de nosso desenvolvimento e contra todos os desperdícios de oportunidades. Por que ainda não vemos ninguém nesta direção? Por que todos falam dos problemas de infraestrutura e logística, mas não se faz nada? Quais os interesses que nos prendem a um passado que não voltará? Somos vítimas de nós mesmos e de nossa incapacidade de agir no presente para a construção de um futuro melhor. A negação da história não ajuda em nada. Somos nossos maiores algozes.

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Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. cieam@cieam.com.br

Publicada no Jornal do Commercio do dia 25.04.2019



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