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“Estamos atrasados para o futuro” - Entrevista - Nelson Azevedo

Entrevista publicada pelo Jornal do Commercio

As tecnologias digitais vêm provocando mudanças rápidas e irreversíveis em todas as áreas de negócio. É o assunto do momento tratado com a devida urgência pela Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), que aponta um caminho único para as empresas do segmento industrial, ou adotam os novos processos de manufatura - a manufatura 4.0 - ou perdem mercado. Para o vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, essa quebra de paradigmas pode significar oportunidade, para uns, ou ameaça para outros. Leia a seguir trechos da entrevista com o empresário:

JC - Como podemos definir essa nova era da industrialização no mundo?

Nelson Azevedo - Desde o início dessa década estamos ouvindo os rumores sobre essa quarta revolução industrial, a Indústria 4.0, representada pelo uso integrado de tecnologias digitais avançadas, da automação e inovação em processos de manufatura. A diferença para as revoluções industriais das anteriores é a velocidade assustadora como vem ocorrendo - se levamos em consideração o intervalo de um século entre as revoluções anteriores - do surgimento das máquinas a vapor, no século 18, à introdução da siderurgia e petroquímica na produção em massa, no século 19; à era eletrônica, com o primeiro controlador lógico programável, a partir dos anos 1970, ou seja, a indústria segue evoluindo e se reinventando, só que esse recente salto tecnológico, da produção seriada e padronizada para a digitalizada aconteceu em menos de 40 anos. E agora, que bate à nossa porta, devemos encará-la com a devida seriedade dentro da política industrial brasileira.

JC - A digitalização vai afetar também a forma da indústria fazer negócio?

Nelson Azevedo - Sem dúvida. A digitalização da produção industrial deu origem ao conceito de manufatura avançada que já está provocando -e vai provocar ainda mais- impactos significativos não só no desenvolvimento de produtos, mas também na forma de se fazer negócios. As empresas que não adotarem as tecnologias digitais terão muita dificuldade de se manter competitivas e, consequentemente, no mercado.

JC - O que essa tecnologia traz de bom para a humanidade?

Nelson Azevedo - Já tivemos a oportunidade de ver isso no dia a dia. São muitos os exemplos do que as tecnologias digitais podem fazer para o bem - ou para o mal - além dos resultados dessa fusão do mundo real com a realidade virtual. Quando o nosso smartphone nas reconhece pela voz, ou quando descobrimos o que a impressora 3D pode fazer nas áreas de desenvolvimento de produtos, como os blocos e estruturas de suporte usados pela indústria da construção, muito mais resistentes e leves que os convencionais, aí percebemos que daqui pra frente não tem mais volta.

JC - Então, o segmento industrial tem uma agenda urgente a cumprir?

Nelson Azevedo - Com a chegada da Indústria 4.0, a forma como a maioria das nessas indústrias produz atualmente estará totalmente ultrapassada em muito pouco tempo. Para alguns setores, a necessidade de atualização tecnológica virá mais cedo, mas acabará chegando para todos. Porque da nossa habilidade em dar esse grande salto tecnológico dependerá a nossa capacidade de competir internacionalmente.

JC - Alemanha e Estados Unidos já estão bem adiantados nessa área da manufatura inteligente. Em que estágio está o Brasil?

Nelson Azevedo - Estamos cientes de que adentramos nesse 'admirável mundo novo' com um

pouco de atraso em relação a alguns dos nossos concorrentes diretos. Mas, se o Brasil ainda não está preparado para adotar em larga escala as principais tecnologias envolvidas nesse processo, temos que levar em conta aspectos estruturais, educacionais e culturais do nosso país. Tenho aqui um estudo recente e muito revelador da CNI (Confederação Nacional da Indústria), indicando que pelo menos 14 dos 24 setores da indústria brasileira precisam adotar com urgência estratégias de digitalização para se tornar competitivos em nível internacional. O estudo é o resultado do cruzamento de dados, como produtividade, taxa de inovação e exportação, dos vários setores, comparados ao desempenho dos mesmos segmentos nas 30 maiores economias do mundo. É desnecessário listar esses setores aqui, até porque estamos falando de diferentes níveis de inovação e produtividade, o que posteriormente dará origem a iniciativas direcionadas na política industrial do país.

JC - Quais são os principais entraves que a indústria brasileira enfrenta?

Nelson Azevedo - São muitos, e não basta correr contra o tempo. Entre os desafios que temos pela (frente os mais urgentes são a falta de qualificação do nosso trabalhador, a insuficiente infraestrutura de telecomunicações do país, a dificuldade que as empresas manifestam para identificar tecnologias e parceiros e, por fim, a ausência de linhas de financiamento apropriadas. Neste último caso, a Fieam, por meio da sua Coordenadoria de Tecnologia e Inovação, identificou uma ótima oportunidade de obtenção de recursos incentivados via unidade local da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) para o desenvolvimento de projetos na área de Manufatura 4.0, como foi demonstrado no evento que realizamos em parceria na última quarta-feira (7), na sede da Fieam. Enfim, o governo federal acaba de anunciar um programa - Estratégia Nacional para a Indústria 4.0 - com recursos do Basa para financiar projetos com juros diferenciadas.

JCAM - O que Sistema Fieam está fazendo de concreto nessa área?

Nelson Azevedo - Devo adiantar em primeira mão que o Senai, em sintonia com a necessidade de atualização tecnológica da manufatura brasileira, vai oferecer, já a partir deste ano, 11 cursos de aperfeiçoamento em tecnologias, com a interna das coisas, robótica avançada, impressão 3D, manufatura big data, computação em nuvem, inteligência artificial e sistema de simulação virtual. Em países mais adiantados na Manufatura 4.0, como os Estados Unidos, acredita-se que 60% dos novos empregos que vão surgir neste século exigirão habilidades que apenas 20% da força de trabalho atual possuem.

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