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Importação em alta deve ampliar déficit da indústria em 2018

Notícia publicada pelo site Valor Econômico

A esperada elevação da importação deverá deixar para trás o período de pequenos déficits comerciais na indústria da transformação. O saldo negativo no ano passado foi de US$ 3,21 bilhões, pouco superior ao déficit de US$ 2,43 bilhões de 2016. Com os aumentos dos desembarques, porém, a expectativa é que o saldo fique negativo em US$ 20 bilhões este ano.

Os cálculos são do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e levam em consideração que os desembarques ainda têm muito a avançar. O déficit do ano passado resultou de exportações de US$ 133,04 bilhões e de importações de US$ 136,25 bilhões. Os desembarques da indústria de transformação cresceram 9,7% no ano passado em relação a 2016. Foi a primeira alta dos últimos quatro anos. Desde 2013, o valor desembarcado em bens industriais no país caiu 33,8%.

A alta do ano passado, afirma Rafael Cagnin, economista do Iedi, indica uma recuperação das importações baseada na retomada da economia. Ele ressalta, porém, que o avanço vem em cima de uma base muito baixa. Mesmo com o crescimento de 2017, o valor importado no ano passado ­ excluindo­se 2016 ­ foi o menor desde 2010, quando o setor comprou US$ 159,4 bilhões do exterior.

Neste ano, o que se espera é um dinamismo maior das importações de bens industriais, diz Cagnin. "A conjunção de fatores positivos para o saldo da balança da indústria de transformação não deve se manter. Se o dinamismo da economia se mantiver, com alguma melhora após as eleições, é provável que o déficit saia da casa dos US$ 3 bilhões para algo em torno de US$ 20 bilhões."

Ao mesmo tempo em que a indústria brasileira não tem condições de alavancar as exportações e aumentar a inserção no mercado internacional num ritmo muito maior no curto prazo, as importações devem ter uma reação em praticamente todos os ramos industriais, avalia Cagnin. O avanço deve ser puxado pela importação de bens que representam os intermediários, como plásticos, borrachas, produtos metálicos e componentes eletroeletrônicos.

A perspectiva das empresas para produção e consumo de insumos importados vai nesse caminho. Na Metalplan, fabricante de bens de capital, a expectativa é que as receitas avancem em ritmo parecido, ou superior, ao do ano passado, quando a empresa teve alta de 15% em relação a 2016, segundo Edgard Dutra, diretor da empresa. A importação de insumos deve acompanhar ritmo parecido, ou até maior. Os componentes de fora precisam ser comprados antecipadamente e em quantidade, explica ele.

Produtos de linhas novas tendem a ter parcela maior de componentes importados: em torno de 40% contra uma média de 25% do total de máquinas produzidas pela empresa. "No caso de componentes importados, há sempre o receio de estocar demais e morrer afogado, ou de ser muito tímido e não ter como atender o mercado por falta de insumos", afirma o empresário.

A expectativa para o crescimento, diz Dutra, está baseada principalmente na recuperação do mercado doméstico, que parece iniciar o ano melhor do que janeiro de 2017. Ele pondera, porém, que existe ainda um parque de máquinas usadas sobrando no mercado e que o retorno da atividade deverá mostrar também que nem toda a produção voltará.

Há, ainda, o receio do quadro político, com eleições que podem causar novo impasse na decisão das empresas de investir. "O ano de 2018 será complicado e dependerá do que acontecer na área política e da reação de mercados. A atuação dos que querem especular tornam o trabalho uma montanha russa", avalia Dutra.

O que joga a favor, diz o diretor da Metalplan, é a vida útil de alguns tipos de máquinas que precisam ser mantidas em operação, mesmo quando há alta capacidade ociosa. Por isso, conta, é difícil traçar uma meta real, apesar de uma expectativa de alta de produção relativamente importante.

A expectativa para 2018, avalia Cagnin, é que a retomada do mercado interno eleve a demanda não somente da indústria doméstica de bens de capital como também pela importação de máquinas e equipamentos. Mas ele também aponta incerteza em relação às eleições e à condução de medidas fiscais. "Se o ano não vier pontuado de muita volatilidade, o que se espera é que parte dos investimentos seja recomposta, não pela expansão de produção, mas ainda pela proteção de competitividade e elevação de produtividade."

João Carlos Visetti, diretor­executivo da Trumpf, importadora de máquinas, faz diagnóstico semelhante. Ele espera crescimento de faturamento de 20% nos 12 meses encerrados em junho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores, puxado por pedidos da indústria automobilística, de transportes e implementos agrícolas. Nos 12 meses terminados em junho de 2017 ­ o executivo usa a métrica do ano fiscal da matriz alemã ­ a receita cresceu 50%.

Mesmo com o avanço, incluindo a expectativa do resultado até o fim do primeiro semestre, diz Visetti, o faturamento da empresa no Brasil ainda estará cerca de 15% abaixo do período pré­crise.

"Continuamos vendo um crescimento significativo na compra de máquinas e a tendência é que isso se mantenha até abril e maio. O que a acontece depois disso vai depender de medidas importantes, como a reforma previdenciária", explica. "Apesar da melhora, os clientes ainda continuam substituindo equipamentos e modernizando produção e não se vê aumento de capacidade."

Uma reforma previdenciária, avalia ele, deve ter impacto no nível de confiança das empresas, porque significaria que o governo terá recursos para investir. "Se houver confiança, as empresas já passarão a retomar projetos e se preparar para o ano que vem. Isso é fundamental para sustentar o crescimento dos investimentos."

Paulo Castelo Branco, presidente da Abimei, entidade que representa os importadores de máquinas, espera para 2018 a primeira alta na importação de bens de capital depois de quedas sucessivas desde 2014. A expectativa é de crescimento de 10%. O que se espera, diz, é a continuidade do crescimento das compras externas de máquinas iniciado no segundo semestre de 2017.

A subida deste ano, destaca ele, é o início de recuperação de um longo período de perdas. No ano passado, apesar dos primeiros avanços no desembarque de bens de capital desde agosto, houve queda de 12,1% no acumulado de 2017 contra o ano anterior. De 2013 até o ano passado a queda acumulada foi de 50,6%.

Nos pedidos encaminhados para o setor este ano, diz ele, há ainda predominância para manutenção da produção, mas o desengavetamento de novos projetos já começou a ser discutido pelas empresas, principalmente nas áreas automobilística e de linha branca.

O primeiro mês do ano já confirma a expectativa de elevação das compras do exterior. Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, as importações iniciaram janeiro com alta de 16,4% em relação a igual período de 2017, em ritmo maior que o avanço de 13,8% nas exportações. A alta foi generalizada. As compras de bens de capital do exterior cresceram 11,4%.

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